quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Recife - Encontro da ABRAPSO

E lá fui eu para mais uma viagem. A data do Encontro Nacional da ABRAPSO (Assoc. Bras. de Psicologia Social) foi entre 12 e 15 de Novembro de 2011. Eu havia me inscrito desde julho do mesmo ano. Tive 2 trabalhos aprovados. Então tive que ir pra lá! Comprei bilhetes promocionais da Gol, uns meses antes e por isso foi bem baratinho.

Inicialmente, falei com minha grande amiga Marjorie, para me receber na casa dela. Uma semana antes, ela avisa que vai viajar com o namorado. Me recomenda hospedar-me na casa da amiga dela, Jackeline. E assim aconteceu. É um pouco estranho ficar na casa de uma amiga da amiga, pois a gente pensa que tem uma intimidade que não existe. A anfitriã, apesar de sua TPM insuportável, me recebeu bem e dei boas risadas.

Eu já havia ido outras 2 vezes a Recife. Numa delas, passei quase 15 dias, após o término da viagem pelo rio São Francisco. Então desta vez, decidi conhecer os lugares que ainda não havia visitado. Passiei pelo centro, conheci o mercado são josé, a casa da cultura, o teatro são luiz, o recife antigo. Apenas um dia fui pra praia: Muro Alto, pertinho de Porto de Galinhas.

O congresso foi bom. Legal mesmo reencontrar os amigos. E legal também é aproveitar a vida cultural de Recife com os amigos. Além disso, assisti a uma sessão de aniversário de núcleo da União. Foi muito boa. Reencontrei alguns bons amigos também.

Enfim, fiquei por lá 1 semana. Comprei umas poucas lembrancinhas para decorar minha nova morada. Voltei já cheio de trabalho. Gostei de ter assistido o show do Tom Zé, visto uns filmes legais na mostra de cinema, aproveitado a feira do livro em Olinda, aproveitado o Recife antigo e ter dado risadas com as pessoas que conheci.

Voltei para Manaus satisfeito. Agora, que venha a próxima!

Avião

Mercado São José

Centro

Casa da Cultura - antigo presídio

Jackeline, Mavie e eu

Recife Antigo

Olinda

Marjorie, eu e Jackeline em Muro Alto

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Argentina - Tucumán

Em Agosto deste ano estive na Argentina, apenas por 1 semaninha. Foi uma passagem relâmpago pela terra de minha estimada mãe. Ela nasceu e se criou em Tucumán, ao noroeste argentino. Já faziam 5 anos que não os visitava. Eu havia prometido para mim mesmo que, assim que eu tivesse condições de tempo e dinheiro, iria passar por lá. E assim fiz no início de Agosto, após eu ter concluído mais um projeto profissional.

Peguei um voo da Gol, que parou em Porto Alegre para conexão e de lá direto a Cordoba. Meu tio nos esperava, no frio abaixo de zero!! Eu estava congelando! Recém-chegado de Manaus em SP, ainda não estava acostumado com o frio. Fui direto pra um frio forte. Quase eu viro cubo de gelo! Passamos a noite dirigindo. Ainda durante a manhã chegamos em Tucumán.

No primeiro dia, passei frio, muito frio. Só descansei e à tarde visitei meus parentes. Tive tanto frio que voltei tremendo para casa, antes mesmo do resto dos tios e primas chegarem. No dia seguinte cedinho fui comprar roupas de frio. Finalmente estava abrigado!

Nos outros dias, me encontrei com uma pretendente. Já a conhecia fazia praticamente 1 ano. Amiga da minha prima. Enquanto eu ia passear no centro da cidade, visitar os lugares históricos, eu ia conversando com ela e podendo trocar ideias pessoalmente. Tucumán é o jardim da república. Foi nesta cidade que a Argentina se tornou independente. Tem a casa histórica, onde foi proclamada a república e a primeira constituição. Além disso, há muitos artesanatos das culturas indígenas locais, exterminadas pelos espanhóis. Aqui é uma região muito interessante. O mundo andino inicia aqui. As montanhas se elevam à beira da cidade. O altiplano cresce a partir de Tucumán. 

Em relação à mocinha, foi legal enquanto durou. Conheci a família e até mesmo o cachorro! Mas essas relações à distância já não me animam muito. A não ser que fosse um amor avassalador.. Não foi o caso. O relacionamento já estava estranho antes deu ir. Na verdade, fui para ver no que dava. Foi bom apenas enquanto durou. 

Já meus parentes, esses eu estou com muita saudade até agora. Foi muito pouco tempo de convivência. Meus primos de primeiro grau tendo filhos!! Minhas tias ficando velhas. A vida seguindo seu rumo. E eu, aparentemente, continuo nas viagens... quando não mundo a fora, no mistério das profundezas do espírito.

Voltei a São Paulo para mais outro congresso da minha área e vim para Manaus. Minha nova base. Onde estou firmando raízes. E até a próxima viagem!

Plaza Tucumana

Congresso

La paz, siempre!

Lugares lindos

Argentinos inconformados..

Quase ingleses!

Força!

Perto da Casa Histórica

Patrícia, tio Gordo, tia Pampi, tio Augusto

Paula, prima querida

Vida noturna

Mercedes Sosa

Daniela, prima querida

Movida tucumana

tio Augusto, Adrián, Paola, seu namorado e Lautaro

Em cima: Julieta, Paola, Daniela, eu, Paula, Lourdes. Abaixo: Agostina e Mariana

Tia Pampi, tia Olga, Daniela, Lourdes

Mais uma viagem...

sábado, 25 de junho de 2011

Rio Jutai - Manaus

Chegamos num Sábado em Marauá, a primeira das comunidades do rio Jutai dentro da RESEX. De cara notamos a diferença. Essa comunidade era maior, e mais bonita que as outras do Riozinho. Parecia mais organizada. As pessoas bem simpáticas e receptivas. Senti-me bem de chegar e ser bem recebido.

No Domingo, havia um torneio de futebol na comunidade vizinha, Bordalé. Fomos todos lá prestigiar. Umas pessoas da expedição até jogaram nos times locais. Esse tipo de evento atrai gente de todas as comunidades vizinhas. O povo gosta de jogar futebol. Há times masculinos e femininos. Todos aproveitam para se visitarem, conversarem, dançarem forró. É bem legal ver a comunidade cheia de gente. À noite rolou uma festinha, mas eu não fui pois estava cansado. Ainda bem que não fui, pois um rapaz esfaqueou um outro sujeito, por ciúmes. O pessoal da expedição colocou ele na voadeira (lancha) e o levou para Jutai, que não é tão perto. Todos ficaram chocados. Os que ficaram mais chateados foram os comunitários, pois isso não costuma acontecer. Há anos que não se tinha notícia nem de brigas. E logo com a nossa presença por lá, isso foi acontecer. Todos ficaram bem chateados com isso. Até eu fiquei chateado, sem mesmo ter ido no forró ribeirinho.

Depois subimos o rio Jutai por mais um longo dia de viagem. E no outro dia, mais tempo de viagem até finalmente chegar à penúltima comunidade. E mais uma hora de voadeira para alcançar a derradeira comunidade. Ufa!

Na ordem de subida do rio:
Marauá
Bordalé
São Raimundo do Seringueiro
Novo São João do Acural
São João do Acural
Cazuza
Cariru
Pururé
São Raimundo do Piranha
Novo Apostolado de Jesus
E mais uma família isolada, no Patoá.

Esse trabalho me traz satisfação porque estamos tornando público o modo de vida dessas pessoas. É uma vergonha a maneira como o governo trata a educação. Em um ano inteiro, os professores de uma comunidade deram apenas 1 mês de aulas somados. Em geral só se estuda até a 5ª série. Quando a escola não está em estado mais do que precário, as aulas são dadas na casa de alguma pessoa. Não há água potável. Nem qualquer forma de saneamento básico. Não há energia elétrica, apenas alguns geradores movidos a diesel ou gasolina, que nem todas as noites funciona. Durante a seca, o sofrimento aumenta muito, pois a distância do rio aumenta e haja força para carregar os baldes de água. O sol está cada vez mais escaldante. Boa parte das pessoas não possui documentos. Há um grande descaso governamental.

Para piorar esse esquecimento voluntário do poder público, as histórias mais chocantes são a de expulsão de moradores em comunidades antigas de certas áreas. Há menos de 10 anos atrás foi criada uma Estação Ecológica, que é uma modalidade de Unidade de Conservação que não permite moradores. Numa área onde moravam dezenas de famílias, há anos, o governo simplesmente às expulsou. Sumariamente. Sem dó nem piedade. Os absurdos de um país chamado Brasil.

Durante esses dias acabei pegando carrapato. O "micuim", um carrapatinho tão pequeno que é invisível a olhos nus. Coça muito. Para tirar eles, óleo de andiroba, que eu havia comprado uns dias antes dos ribeirinhos.

Faltando apenas 1 comunidade para eu terminar o trabalho, a notícia para voltar a Manaus. Urgente. Saiu o financiamento de um projeto para eu trabalhar nos próximos 2 anos e meio. Voltei às pressas, sozinho. Foram horas de voadeira até a cidade de Jutai e depois Fonte Boa. Voo à tarde. Despedi-me de todos. Durante a semana o barco chega e vou lá pegar as coisinhas que comprei de lembrança de indígenas e amazonenses.

Valeu muito a pena a viagem. Aos poucos ganhando experiência de campo. Conhecendo a vida no interior amazônico. Tornando-me um pesquisador da Amazônia.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Rio Riozinho 2

Após a passagem pela sede municipal de Jutai, por conta dos casos de malária em algumas pessoas da expedição, retornamos à RESEX do rio Jutai. Faltavam mais algumas comunidades do rio Riozinho para serem pesquisadas.

No entanto, parece que ali começava meu final de semana de azar. Logo no Sábado, enquanto ainda estávamos em Jutai, resolvi aderir ao novo esporte: o pranchão. A voadeira (lancha) vai correndo o rio com uma corda. A pessoa segura a corda e, com uma prancha, vai se divertindo com manobras aquáticas. Quando foi a minha vez, o cano de plástico para segurar estoura. Tive vários ferimentos na mão direita. Foram alguns dias até cicatrizar e eu poder usar minha mão novamente.

Além desse abalo psicológico, assim que subimos o Riozinho novamente, acontece mais uma comigo. Domingo, dia seguinte do acidente com o pranchão. Estamos todos no barco e de repente aparecem dois meninos em suas canoas, brincando de pescaria de arco e flecha. Nestas comunidades, boa parte das pessoas pesca com esses instrumentos. Vou pegar a câmera. Tiro uma foto. Quando vou me ajeitar para uma posição melhor, minha mão direita machucada não segurou a câmera. Ela quica no chão e cai nas águas pretas do segundo andar do barco. No mesmo instante em que vi ela caindo na água, fui tomado por um impulso primitivo de resgatar o objeto. Há alguns dias atrás eu tive medo de saltar na água daquela altura. Demorei para pular. Naquele momento, assim que vi a câmera afundando, saltei de ponta em menos de 1 segundo. Mergulhei fundo, mas as águas escuras não permitiam visão nenhuma. Assim que emergi novamente, o pessoal estava olhando se eu havia logrado resgatar o aparelho eletrônico. Em vão. O pior que não era a minha câmera. Era a da minha colega. Isso que me deixou mais triste. Assim que eu subi no barco, o pessoal já me deu a ideia. Falar pra dona: "você que a notícia boa ou ruim primeiro?". A notícia boa foi que ela ganhou uma câmera novinha. A ruim foi que ela havia ficado sem câmera. Eu deixei a minha emprestado com ela o resto da expedição. E na volta combinei de ressarci-la devidamente. Que azar! Na hora nem pensei nos perigos de saltar no rio. Eu sabia que em rio de água preta não há troncos na água e há poucos peixes. Jacaré só aparece de noite. Como todos brincaram depois, a Iara vai tirar umas fotos nos próximos dias.

Explicando. A Iara é o ser encantado das águas, segundo o povo daqui. É a guardiã das águas. Em algumas comunidades ouvi relatos de gente que já teve o merecimento de vê-la. Alguns contam apenas que ela protege algumas roças. Outros que ela protege as águas dos rios. Outros já falam de visões que tiveram. E assim o universo amazônico vai mostrando seus encantos.

Subimos o Riozinho até a derradeira comunidade. Na ordem da subida, ficou assim:
Monte Tabor
Cristo Defensor
Nova Esperança
São Bento
Bacabal
Novo Cruzeiro
Vila Efraim
Bate Bico
Vila Cristina
Porto Belo
Boa Vista

As águas do Riozinho são negras. À medida que vamos subindo o rio, parece que elas vão ficando mais escuras. As paisagens lá são muito lindas. Uma coisa impressionante. Depois deu ter adquirido uma dívida moral com minha colega, tomei mais cuidado em tirar fotos.

Por fim, foram dias agradáveis esses que passamos no Riozinho. Fizemos amizade com os comunitários e comemos frutas amazônicas, peixe, farinha e açai. Concluída essa etapa, o barco partiu rumo ao rio Jutai, onde haveriam mais várias comunidades rurais a serem visitadas.

sábado, 4 de junho de 2011

Resex do Rio Jutai - Rio Riozinho

Jutai fica onde o rio Jutai desembolca no rio Solimões. As águas pretas que se misturam com as águas barrentas. O espetáculo do encontro das águas. As belas paisagens amazônicas, que máquina fotográfica nenhuma consegue captar. Pelo menos, ainda não consegui tirar uma foto que mostrasse a beleza deste lugar incrível. Aqui o pôr-do-sol é o que me chama mais atenção. No momento em que o dia está para terminar, o sol vai baixando e o céu inteiro fica colorido. Onde o sol está se pondo as cores são mais vivas. E do lado oposto do horizonte o céu também está colorido. Tudo fica colorido. É um espetáculo lindíssimo cada dia que se vai. E cada noite, repleta de estrelas, também é uma obra prima do Absoluto.

E assim vamos desfrutando da magia amazônica. Subimos pelo rio Jutai até o momento em que desemboca o rio Riozinho. Subimos pelo Riozinho até chegar às comunidades da RESEX (Reserva Extrativista) do rio Jutai. Aqui começou a segunda etapa de nosso trabalho. A parte mais legal e interessante, porque finalmente estaríamos conversando com o povo simples das comunidades rurais amazônicas. Os famosos ribeirinhos.

Chegamos em Monte Tabor, com suas 17 casas. Ali, naquelas águas pretas, o povo vive da pesca e agricultura. Vidas simples. Famílias numerosas. Mulheres tendo filhos a partir dos 13 ou 14 anos. E muitos filhos. Vidas sofridas. Mas vidas tranquilas. A maioria quase absoluta não trocaria essa vida pela cidade. No meio urbano é preciso emprego, dinheiro e muito mais. Ali eles vivem do que a natureza lhes dá.

Visitamos as comunidades da margem esquerda do Riozinho: Monte Tabor, Cristo Defensor, São Bento, Nova Esperança, Bacabal, Novo Cruzeiro, Vila Efraim, Bate Bico, Vila Cristina. São comunidades que surgiram a partir do momento em que foi plantada a Santa Cruz. O fundador dessa religião é o irmão José, um mineiro que um belo dia teve algumas visões e saiu pela América do Sul plantando uma cruz, ensinando o povo a ler a Bíblia e a seguir um regulamento. Em minha tese de doutorado eu já havia estudado uma comunidade que segue a Cruzada, como também nomeiam os comunitários. Há até uma igreja que se parece com um castelo em 2 delas.

E a cada casa que entramos para fazer nosso trabalho, uma história de vida. Algumas emocionantes. Outras peculiares. Há aquelas que relatam vidas sofridas. Também ouvimos a respeito dos conhecimentos de plantas e ervas medicinais. Histórias de onça, cobra, jacaré e outros bichos da floresta. E claro, do movimento religioso que fundou essas comunidades, mas que no momento muitas delas já abandonaram a crença, deixando que a Santa Cruz caia no esquecimento. Em apenas 2 delas as regras ainda vigoram. Lá as meninas não puderam circular a não ser de saia e manga comprida!

Minha equipe tem sido trabalhadora. As duas empenhadas no trabalho e ouvindo as histórias desse povo simples. E assim a gente vai aumentando nossa bagagem e conhecimentos a respeito do povo brasileiro. Um país tão grande que muitas vezes parece até um continente. Aqui mesmo estamos na Amazônia do Alto Solimões, que boa parte dos brasileiros só conhecem pela televisão, têm opinião formada, sabem o que fazer com ela, mas que nunca pisaram nestas terras, florestas e rios. Não sabem que aqui há uma diversidade cultural enorme. Que há mais do que apenas índios pelados. Aqui vivem os amazonenses, o povo das águas e da floresta. Gente simples e batalhadora, que sofre com o esquecimento governamental, mas que vem sobrevivendo com o esforço do suor na agricultura, pesca, caça, extrativismo e coleta. O benefício maior mesmo, na minha opinião, é estar mais próximo do ritmo da natureza. Conhecer a força de lua, em suas fases. A força do verão e do inverno amazônico. A força do vento e das águas. A força da terra. A força das frutas, em suas épocas. A força dos animais.

Tivemos que voltar até Jutai porque houve casos de malária diagnosticados na tripulação. Todos fizemos exames e apenas 03 estão doentes. Outros ainda com suspeita da doença. Eu, graças a Deus, melhorei do resfriado que já durava 03 semanas. Nas comunidades pude comer várias frutas amazônicas, especialmente o açai tirado na hora. A comida no barco é o de sempre: arroz, feijão e farinha d'água (feita da mandioca e prato típico do amazonense), acompanhado de carne de vaca ou frango. Às vezes há peixe para todos, recém pescados no rio. Almoço e janta sempre iguais. Estou tomando multi-vitamínico. E meu café da manhã diferenciado, devido a eu ser celíaco: apenas coisas de milho, mandioca e nada de açúcar. E assim venho vivendo esta vida de pesquisador na Amazônia.

Em breve subiremos novamente o rio Jutai e Riozinho para concluir as comunidades. Depois, vamos ao Rio Jutai, onde há outras comunidades. E final do mês acaba o trabalho. Ainda muito rio a percorrer.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Santo Antônio do Içá

Saímos bem cedo de Benjamin Constant, descendo o rio Solimões durante todo o dia. Agora à noite paramos em Santo Antônio do Içá, umas simpáticas cidades do Alto Solimões. A navegação por este rio é só para navegadores muito experientes. Muito, porque apenas navegadores acabam batendo em troncos no rio e capaz até de afundarem a embarcação.

Durante a semana passada acabei por pegar um resfriado. Aqui na Amazônia o clima é sempre quente. Ao contrário do que mostram os telejornais editados no sudeste do país, as estações equatoriais não são as mesmas que a das demais regiões do globo. Há o inverno amazônico, que corresponde à época das chuvas. No Alto Solimões é entre Dezembro e Junho. Isso representa enchente e cheia também. O pico da cheia é em Maio. Portanto, as notícias sensacionalistas de que está tudo alagado é apenas para telespectador desinformado pensar que a natureza está em revolta. Aqui todo ano enche. Alguns anos enche mais do que outros. As pessoas que vivem à beira dos rios constroem suas casas em palafitas, com umas distância razoável do solo. Uma tecnologia antiga, desde os povos indígenas mais antigos. O verão aqui vai de Julho a Novembro, com o pico da estiagem em Setembro. E faz mais calor do que o normal, pela falta de chuva. É a melhor época para pesca, pois há menos água para onde os peixes podem nadar. Quando a televisão mostra que o país está entrando no outono e depois no inverno, isso não se aplica à região norte. Essa falta de divulgação das diferenças regionais deixa o povo daqui triste, pois é como se a cultura e condições locais não existissem para o resto do Brasil. Isso porque a Amazônia representa cerca de 60% do território nacional...

Pois bem, nesse calor todo, qualquer vento mais gelado faz a gente se resfriar. À noite também esfria levemente, principalmente se chove. Explico-me: a temperatura desce para uns 25ºC!! De dia, em torno dos agradáveis 35ºC. Um destes dias estava muito quente, pra variar. E numa das noites choveu. E eu e mais algumas pessoas nos resfriamos. E demora dias para nos curar. Agora, após 1 semana, estou quase bom já.

No barco a parte mais difícil está por vir. Nesta região amazônica não há variedade de verduras. Primeiro porque o solo não permite agricultura extensiva, apenas a familiar. Ou seja: comprar em larga escala não dá. Segundo, não chegam os alimentos das outras regiões do país até aqui. Portanto, ficaremos sem verduras em breve. Frutas há algumas. E estou procurando comer o que posso. Vamos ver como será daqui em diante.

Estou feliz por este trabalho. A primeira parte da viagem já foi. Agora inicia-se a segunda, onde visitaremos inúmeras comunidades ribeirinhas da RESEX (reserva extrativista) do rio Jutai. Boa parte da tripulação já virou uma grande família. Claro, há sempre maior afinidade entre certas pessoas e certos grupos. Eu procuro me relacionar da melhor maneira possível com todos. Trocamos ideias, comidas, risadas e experiências. E por essa razão esta expedição é uma coisa que ficará marcada em nossas vidas para sempre.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tabatinga e Leticia (Colômbia)

Hoje foi nosso dia de folga. Logo 06h10 da manhã pegamos carona com a lancha da UEA que leva os alunos de Benjamin Constant até Tabatinga para estudarem. Após 1 hora de viagem, chegamos. A turma do barco se dividiu mais por afinidade e disposição para acordar cedo. No meu grupinho estávamos em 8 pessoas. Fomos andando pela cidade e paramos em uma padariazinha para tomar café da manhã. Ai, quando chegamos ao Banco do Brasil, a chuva começou. E durou muito tempo. Nisso, eu vi a sede da Rádio Nacional do Alto Solimões. Essa é a rádio que o povo de Tauaru ouve e pela qual eu posso mandar recados. Então, fui lá para deixar um recado. E não é que a moça me convida para uma entrevista? Mas, como estava de folga, não prometi comparecer.

Então, continuamos nossa caminhada na chuva mesmo, até Leticia. Basta atravessar a rua e se entra na Colômbia. E logo se percebem os contrastes. As ruas são mais ordenadas. Há mais carros. Há comércio. Muitas lojas para comprar perfumes, importados, cosméticos, roupas, etc. Lojas de artesanato que não acabam mais. E a melhor surpresa: na Colômbia há colombianas. Minha nossa senhora, elas são bem bonitas. Chama muito a atenção. Lindas mesmo.

A cidade é muito simpática. Com bastante vida. Andamos bastante. O pessoal comprou bastante coisa de artesanato. Eu, que já havia comprado várias coisas dos índios, só levei uma ou outra lembrancinha. Após vasculhar as lojas, andamos um pouco pelas ruas, conversando com o povo colombiano. Nessa cidade eles são bem receptivos. As praças são bem gostosas. Há bastante árvores. Muito comércio. Gostei. Já havia vindo para cá outras vezes. O melhor foi a hora de comer. Pratos típicos e bem servidos. Comi o tal do "arroz chaufa", que veio um prato enorme que dividimos em três e quase sobrou.

No fim da tarde, voltamos a Tabatinga. E de lá para Benjamin Constant. Amanhã desceremos o rio Solimões até Jutai. Serão 2 dias até lá. E em breve chegará o momento em que ficarei incomunicável por muitos dias...

Atalaia do Norte 2

Acabou que Atalaia do Norte foi nosso ponto de referência nesta parte da viagem. A cidade é bem pequena. Precaria em tudo. Falta frutas, verduras, água potável. Médicos e outros profissionais de saúde. O que há são 05 etnias que convivem no município: marubo, mayuruna, kanamarí, matsé e matis. E há também os kulina e korubos, que são índios isolados. E dizem que há mais outros grupos isolados, que não se sabe o nome da etnia.

Desses índios se pode ver uma boa diferença. Há os que são brancos, de olhos castanhos bem claros e cabelos quase loiros. Os brancos de cabelos já mais escuros. E os que são mais morenos. Isso me chamou muito a atenção. Há os que parecem mendigos pobres e sujos. E aqueles que são mais organizados e sabem valorizar suas produções artesanais. Eu aproveitei para adquirir lembranças das etnias que pude.

Já a cidade vive em clima de festa na sexta, sábado e domingo. Há 02 restaurantes em que se pode comer uns pratos gostosos. Eu comi bastante ceviche, a comida típica dos peruanos. Aliás, o Peru é do outro lado do rio e não há controle nenhum de ida e vinda de pessoas. Então já viram que por aqui, controle de alguma coisa é inexistente mesmo. Nas noites do final de semana rola uma "festa", que os paulistanos chamariam de "balada". O som fica se repetindo o tempo todo. Vai do reggaeton, ao eletrônico, ao forró bagaceira. E repete. Repete. Repete. As mesmas músicas. O pessoal do barco foi uns dias. Alguns guerreiros foram vários dias. Eu fui mais para ver e me divertir com a turma. Os outros dias preferi descansar. Aos Domingos teve o banho do tampinha. É um igarapé que dá pra tomar banho e tem música ao vivo. Foi bem divertido os dois domingos que ficamos por lá. Integração da galera do barco. Outro dia eu comentei das atalaienses. Depois de ficarmos uns dias aqui, vi que a euforia feminina local foi mais devido ao fenômeno da "carne nova". Uns rapazes do barco arranjaram suas namoradas locais. E depois, já éramos conhecidos da cidade toda. Gente conhecida já não tem mais graça.

E assim se passaram os dias em que ficamos em Atalaia. Vida tranquila de interior da Amazônia.


sábado, 21 de maio de 2011

Rio Itacoai

Após um dia de descanso merecido em Atalaia do Norte, nosso barco seguiu para o rio Itacoai. Agora sim, em terras cada vez mais próximas da tribo de índios isolados. Em terras onde há mais animais silvestres, como a temível onça, por exemplo. Em terras onde a Amazônia é mais misteriosa.

Como das vezes anteriores, da cidade arranjamos alguma pessoa que conhecesse as áreas a serem exploradas. Desta vez o nosso contato era com o Seu Churrasco. Um apelido estranho mesmo! E chegamos, após algumas horas de navegação pelo rio Itacoai, à pequena comunidade ribeirinha de São Rafael.

Aqui as histórias de contato com os Korubos, os índios isolados, são fartas. Contam que um pequeno grupo se separou da sociedade Korubo. A FUNAI só teve contato com 27 desses índios. Estima-se que haja mais de 1500 deles, em uma área entre o rio Quixito e o rio Itacoai. Justo onde pudemos percorrer. Esse grupo dissidente já estabeleceu contato com o pessoal da comunidade São Rafael e da comunidade Ladário, há apenas 5 minutos de bote uma da outra. O contato inicial ocorreu há alguns anos atrás. Esses Korubos eram bem violentos. São conhecidos como índios "caceteiros", pois eles matavam as pessoas com uma cacetada na cabeça. Nessa comunidade São Rafael, os primeiros contatos foram bastante temerosos para a população local. Eles chegavam e queriam as coisas. Se fossem contrariados, eles matavam. E 3 pessoas morreram assim. Tentaram sequestrar uma criança. Pedem sempre farinha e utensílios domésticos. E cachorros também, que os auxilia na caça. Ao longo dos anos, muitas pessoas foram embora dessas comunidades, com medo desse caceteiros. Por outro lado, eles aprenderam a falar português. E agora sabem falar nosso idioma, andam vestidos e até pedem as coisas em troca, retribuindo com cestos, artesanatos. O povo troca, com medo da represália. A líder é uma índia, Maia. Tem 2 maridos. E dizem que seus peitos são muito caídos. Isso é motivo de graça do povo daqui.

Esses índios Korubos dissidentes só aparecem na época de seca. Agora estamos na cheia ainda. Portanto, encontrar com os caceteiros só em sonho mesmo.

Aqui ouvimos mais histórias de onça. Dizem que seu esturro é assustador (o cachorro late; o gato mia; a vaca muje; a onça esturra!). Contaram dos contatos que já tiveram com o animal. Ele só pega a pessoa por trás. É bem traiçoeira. Ataca apenas se sente ameaça ao filhote, se está no cio, ou se está com fome. Portanto, é melhor nem querer encontrar com uma dessas. Claro que muita gente gostaria de encontrar com um bicho desses no meio da floresta. Eu fiquei pensando que seria legal. Mas, ao pensar melhor, ponderei: se eu tenho medo de cachorro grande latindo e bravo, imagina só uma onça faminta esturrando, levantando os pelos das costas e em posição de ataque! Como todos disseram por aqui, mesmo a pessoa mais valente treme diante de uma onça. Os pesquisadores que já encontraram com alguma na floresta contaram que é amedrontador. Contam que o macho esturra para o alto e reverbera por muitos metros um estrondo fortíssimo. A fêmea esturra para o chão, então a terra parece tremer e a pessoa sente o barulhão pelo chão. Deve ser mesmo aterrorizador. Mesmo assim, eu queria ver uma onça na floresta. Bem de longe, é claro. Não ia gostar de me virar e lá está ela, logo ali atrás de mim.

E o mais impressioante foram os relatos dos seres encantados da floresta. O "curupira" é o guardião das matas. Ele afasta aqueles que querem depredá-la ou a desrespeitam. Mas também aparece para uns poucos eleitos e os salva em certas situações. De modo geral, o povo tem mais medo desse ser do que lhe tem estima. E um dos meninos da comunidade teve uma experiência incrível. Ao completar 3 anos de idade, acabou se perdendo na floresta e ficou isolado por 3 dias seguidos. Conta que ficou parado, dormindo ao lado de um tronco caído. Bebeu água de um poço perto de onde estava. Já sua alimentação foi de uma fruta, o geninpapo. E esta fruta lhe foi entregue pelo Curupira, durante os 3 dias em que esteve perdido. O garotinho agora tem 11 anos e o povo diz que ele ficou enfeitiçado pelo Curupira. Quando ele pesca, ele puxa os peixes não apenas pelo anzol na boca, mas por qualquer parte do peixe. E só ele consegue algumas pescarias. Perguntei da aparência do Curupira. Ele conta que não lembra bem, mas que ele pensou que fosse uma tia próxima dele, dando-lhe de comer. Enfim, seu avô o rastreou e o levou de volta para casa.

Os incrédulos dizem que o sobrenatural não existe. Só o que é da natural existe. E o que existe é comprovável pela ciência. Pois essa ciência moderna é muito pobre. O que não pode explicar, não existe. Por isso que eu gosto de vir pra estes lados amazônicos: porque as pessoas vivem ainda em um mundo encantado, pleno de mistérios e encantos. O desconhecido está nas lendas, nos mitos, nessas histórias fantásticas. A imaginação das pessoas vai longe. Não apenas as crianças têm direito de sonhar, mas também os adultos. Portanto, o sobrenatural na verdade faz parte da natureza amazônica. E por isso mesmo a Amazônia é um universo enigmático, que segundo Euclides da Cunha, é a última página do Gênese a ser escrita...

sábado, 14 de maio de 2011

Rio Quixito

Após os dias em Atalaia, chegou a hora de continuar a expedição científica. Há diversas equipes: picada (que abre caminho na floresta), inventário florestal (que classifica as árvores), botânica (classificação mais fina), solos (para avaliação do solo), madeira caída (para verificar as madeiras caídas naturalmente), cipós (pesquisa de alguns tipos de cipó) e georreferenciamento (que transforma pontos de GPS em informações valiosas, mapas, etc.). E a minha equipe: socioambiental (para levantamento das condições sociais, econômicas e ecológicas das comunidades). Além dos cientistas, há os estagiários. E os peões, que auxiliam nos trabalhos na floresta, dirigir os botes, etc. E o pessoal do barco, que cuida da limpeza, direção do barco. E os cozinheiros, pois afinal todos nós temos que nos alimentar!

Saímos da cidade viemos subindo o rio Javari. Entramos no rio Itaquaí. E finalmente, pelo rio Quixito. Aqui é Amazônia pura. Floresta intacta. Povos autônomos. Ao longo deste rio Quixito estão 2 dos povos isolados. Um deles seria o dos Korubos, os índios caceteiros, que se estima haverem entre 1500 e 4000 deles. Logo no início do rio há um posto da Funai, controlando os navegantes. Ao se subir o rio, muitas curvas. Curvas e mais curvas. Um rio estreito. Floresta densa. O medo tomando conta da tripulação. Do lado esquerdo, esse povo isolado de caceteiros. Recomendação para não ir até a margem por nada. E do outro lado, os índios flecheiros. Ou seja: ao invés de tomarmos uma cacetada, levarmos uma flechada. Com nós estavam vindo 3 comunitários que possuíam uma propriedade com plano de manejo. Há alguns anos não iam para lá.

Chegamos ao local. A floresta com seus sons. Muitas aves cantando de manhã. E logo o lado infernal desta região se apresentou: os insetos. Muitos, mas muitos insetos. De dia o ataque do pium, um mosquitinho milimétrico preto, que tem uma picada que abre um buraco na pele e sangra. E coça muito depois. Insuportável. Há também o mucuim, um mosquitinho menor ainda, que passa por qualquer mosquiteiro e também pica que sangra, coça e incomoda. De noite, os pernilongo. Ou como chamam por aqui, carapanã. Fora as mariposas e insetos alados estranhos. Apareceu um que diziam ser mais venenoso do que cobra. Eu só durmo na rede com o mosquiteiro. Mas de dia, com o calor, uso repelente, que parece durar apenas alguns minutos. Estou cheio de picadas de pium e de carapanã.

O pessoal que entrou na floresta diz ter ouvido uma onça pintada. Ela só ataca a pessoa de costas, se estiver sentindo-se ameaçada. Ou se estiver com fome. De frente, a onça não ataca. Por aqui ouvimos vários relatos de onças. Os 3 comunitários são caçadores. Numa das noites, entraram na floresta. Descalços!! É muita coragem para mim. E trouxeram uma paca. Carne boa e macia.

Estes dias, eu não entrei na floresta. Apenas fiquei trabalhando no barco. Tomei banho de rio. Li bastante. Dias de repouso. Pratiquei kriya yoga e os exercícios tibetanos, que agora tenho feito diariamente. Os rapazes pegaram açai na floresta. Fresquinho é uma delícia. E também pescaram. Comer peixe fresco é outra coisa.

Sobre a saúde, boa parte dos tripulantes já teve problema de diarréia, devido à água que utilizamos ser do rio e está cheia de microorganismos nocivos. A água para beber é mineral, mas a que tomamos banho, lavamos os alimentos e escovamos os dentes é essa do rio. Eu cheguei a ter um princípio dessa doença, mas meu organismo resistiu, graças a Deus. Quando ataca, é febre, diarréia, indisposição geral. Um dos rapazes teve que abandonar a expedição, pois não havia remédio que o curasse.

E assim vão se passando os dias. Na convivência com as quase 40 pessoas deste barco. Sem internet. Energia racionada e que funciona só quando o motor está em atividade. Há os altos e baixos. Atritos e risadas. Tudo em nome da ciência.

Voltamos hoje para Atalaia do Norte. Folga após esse tempo todo de expedição. E semana que vem vamos a mais uma semana de floresta. Voltamos no Sábado para Benjamin Constant. E Domingo desceremos para Jutai.